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15 de mai. de 2014

Depressão e tabaco


Este post é em homenagem à uma queridíssima blogueira, que está passando por momentos de dificuldades depois que parou de fumar. E, o pior de tudo, é que as pessoas próximas à ela não a entendem. Por isso, na tentativa de ajudá-la a convencer estas pessoas de que seu estado é real, vou falar um pouco sobre a depressão e sua relação com o tabaco, incluindo a relação entre os efeitos fisiológicos da abstinência da nicotina e a determinação do quadro depressivo.

Antes disso, vou fazer uma breve descrição da minha formação acadêmica, apenas no intuito de dar credibilidade ao que vou escrever, já que muitos julgam os ex-fumantes como loucos e dramáticos.
Sou farmacêutica graduada há quase 5 anos, concluí meu mestrado há dois anos na área de produtos naturais com ênfase em farmacologia, estou no último ano do doutorado em ciências da saúde e já dei aula de fisiologia e farmacologia. Todos estes anos de estudo e pesquisa me dão base suficiente para falar com propriedade sobre a fisiologia da nicotina e os seus efeitos no sistema nervoso central. 
Vou tentar ser didática e escrever de forma bem simples para que todos consigam compreender. No final do post, colocarei algumas referências de artigos científicos para caso alguém queira aprofundar a leitura sobre o assunto.

A capacidade que nós temos de sentir emoções é devido à produção de neurotransmissores em nosso cérebro, tais como dopamina, serotonina e noradrenalina. São estes hormônios os responsáveis pelas nossas sensações e eles estão relacionados com o controle de diversos sintomas emocionais, que podem ser observados na  figura abaixo:


A depressão é uma doença caracterizada pela redução dos níveis cerebrais destes neurotransmissores. Portanto, a ausência de noradrenalina diminuirá a energia e o interesse; a ausência de serotonina irá diminuir a capacidade de controlar o impulso; a ausência de noradrenalina e serotonina irá reduzir a capacidade do indivíduo em controlar a ansiedade e a irritabilidade; a deficiência em dopamina irá diminuir a iniciativa em realizar tarefas corriqueiras; e, por fim, a ausência dos três irá reduzir o humor, a capacidade de controlar as emoções e a função cognitiva (capacidade de memória, atenção e raciocínio).  

Um dos efeitos da nicotina é aumentar a liberação destes hormônios no sistema nervoso central. A nicotina se liga em receptores específicos no cérebro, denominados receptores nicotínicos. Estes receptores, quando ativados, provocam a liberação destes neurotransmissores, melhorando todos estes estados emocionais.

Ao parar de fumar, o indivíduo deixa de produzir noradrenalina, serotonina e dopamina na mesma quantidade de antes, perdendo a capacidade de controlar todas essas emoções, por isso que a abstinência da nicotina provoca um estado depressivo, além de irritabilidade, falta de concentração, dentre outros sintomas.

Com o tempo, a produção destas substâncias se regulariza, porém, em algumas pessoas isso não acontece (ou demora mais para acontecer) porque estão mais propensas ao estado depressivo, devido a fatores variáveis que estão sendo estudados pelos cientistas. Pode estar relacionado a:

  1. Tempo de uso da nicotina
  2. Quantidade de cigarros fumados diariamente
  3. Quando foi iniciado o tabagismo (pessoas que começaram a fumar por volta dos 15 anos estão mais propensas)
  4. Fatores genéticos

Portanto, o tabagismo hoje é considerado uma doença crônica e não uma frescura. Atualmente, é considerado um problema de saúde pública! E já existem milhares de estudos com o intuito de descobrir medicamentos que auxiliem no tratamento para pessoas deixarem de fumar e alguns deles já estão disponíveis no mercado. Dentre estes medicamentos, alguns são da classe dos antidepressivos, depois escreverei um post sobre eles. 

Alguns fumantes conseguem parar sem usar medicamentos, mas outros precisam deles. Eu mesma me recuso a utilizá-los, pois antidepressivo é uma droga que provoca dependência tal como a nicotina e que tem vários efeitos colaterais indesejáveis. Por isso, prefiro tentar parar de fumar sem procurar ajuda médica. Caso eu não consiga, admitirei minha fraqueza e procurarei auxílio medicamentoso. 

O que deve ficar claro é que cada pessoa tem suas particulares, o importante é fazer uma relação "risco x benefício" e analisar suas necessidades. Se você está percebendo que não consegue parar sem um adjuvante e sua saúde está prejudicada por causa do tabaco, o ideal é procurar um médico, de preferência especialista em tabagismo.

O que não pode é ficar se martirizando e se culpando por não conseguir. Não se compare à outras pessoas que conseguiram parar de fumar sem utilizar nada. Lembre-se sempre que cada indivíduo tem a sua história e suas particularidades. 


- Listei algumas referências para quem se interessar e quiser aprofundar a leitura sobre o assunto. Como não sei anexar os arquivos aqui no blog, vou colocar os links para vocês encontrarem na internet.
Infelizmente, alguns são artigos científicos que são pagos e só dá pra baixar gratuitamente pela universidade. Mas caso alguém se interesse, é só me pedir que envio por e-mail.
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22558621
  2. http://www.scielo.br/pdf/jbpneu/v34n10/v34n10a14.pdf
  3. http://link.springer.com/article/10.1080%2F10298420290023963
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0278584614000311


8 de mai. de 2014

"Só por hoje"


Nunca esse "só por hoje" foi tão eficaz desde que parei de fumar. Por muito pouco, muito mesmo, eu quase desisti de tudo e fui na padaria comprar cigarro (toda vez que paro de fumar eu passo longe da padaria que tem aqui ao lado da minha casa, pois meu cérebro já a associa ao cigarro, era lá que eu ia todas as manhãs comprar meu maço de cigarros). 

O que aconteceu foi que, definitivamente, não consigo produzir sem o cigarro, é uma coisa muito louca isso, mas meu cérebro está condicionado a associar o cigarro ao estudo. Sinto-me depressiva sem meu cinzeiro ao lado do computador e isto está cada vez pior. Às vezes, penso que terei que trocar de atividade, fazer algo que não exija muito concentração, raciocínio, articulação de ideias e criatividade. Em minha profissão tem muitas áreas que são assim, que não exigem nada disso, que o trabalho é mais técnico e mecânico. Nunca gostei desses tipo de trabalho e foi por isso que partir para a área acadêmica, mas estou me rendendo à esta possibilidade, talvez assim eu consiga ficar sem o cigarro.

Infelizmente, não posso desistir do meu doutorado, não apenas por eu ser bolsista e precisar do dinheiro pra pagar minhas contas, mas também porque sei que me arrependeria amargamente por isso. Admito que já pensei em abandoná-lo, pois é por causa disso que não consigo largar o cigarro, não só pela falta de concentração, mas devido às dificuldades em lidar com os estresses gerados por ele. Tenho consciência que o problema está em mim, tenho que me reinventar, descobrir algo que substitua o "cigarro para pensar". Entretanto, na prática isso é muito difícil.

Ontem eu perdi a paciência com isso e decidi que hoje, quando eu acordasse, iria na padaria comprar meu cigarro. Dormi pensando que talvez agora ainda não fosse o momento ideal de parar e que eu ainda não havia recebido nenhuma sentença de morte por causa do cigarro. E que, por isso, eu ainda tinha o "direito" de fumar mais alguns dias. Só que não, eu não preciso esperar esta sentença.

Hoje acordei melhor, mais animada em me manter firme. Fiquei alguns minutos me olhando no espelho... percebi como minha gengiva está mais clara, antes ela era escura por causa do cigarro, tinha muito medo de ter câncer na boca e garganta; minha pele está menos opaca e mais viva.
Além disso, lembrei que ontem, quando estava voltando do ioga, subi a ladeira da minha casa correndo sem perder o fôlego, foi aí que percebi o quanto meu corpo está evoluindo e o quanto estão valendo a pena esses dias de sofrimento.

Tudo isso me fortaleceu a não ir na tal padaria, e a me manter firme e forte sem cigarros... 
"Só por hoje"...


7 de mai. de 2014

11º dia - fase depressiva

À beira da loucura!


11º dia sem cigarro e a abstinência não melhora em nada, ao contrário, só piora. 
Acho engraçado como alguns sites sobre abstinência são mentirosos. Aposto que quem os escreve nunca fumou, apenas leu o que dizem os artigos científicos sobre dependência da nicotina (e olhe lá). 
Não me canso de ler sobre o assunto e, quanto mais eu leio, percebo que nada me ajuda, pois, me sinto péssima quando leio que com o tempo os sintomas vão diminuindo e vejo que comigo isso não acontece.
Nos primeiros dias sempre me sinto feliz por estar sem fumar, sinto que vou conseguir, apesar de todos os sintomas pesados como dores fortes de cabeça, enjoos e tonturas... mas, mesmo assim, me sinto animada. Só que com o passar dos dias essa animação vai se afastando e a depressão vai se instalando. Começo a sentir uma tristeza profunda de abandono e solidão, que saudade do meu companheiro!

Ah, e o que mais sinto falta? Do cinzeiro ao lado do computador para acompanhar meus estudos e do maço de cigarros pra me auxiliar a produzir. Sem dúvida alguma essa é a minha maior dificuldade em lidar com a abstinência! E isso só faz piorar o meu estado depressivo, começo a me torturar porque não consigo mais me concentrar e perceber o quanto sou dependente de uma droga é desesperador!
Na verdade, já não sei mais se estou depressiva porque meus neurônios não mais se conectam, ou por causa do próprio efeito da abstinência.  

Queria poder tirar férias pelo ao menos no 1º mês de abstinência, não queria ver ninguém, não queria ter que sair de casa. Mas, infelizmente, não posso. Agora mesmo, tenho que ir à uma reunião com minha orientadora, que me incumbiu de apresentar um trabalho para ela hoje. Só que não consegui terminar esta apresentação, meus receptores nicotínicos estão sedentos e não me permitem focar, estou altamente dispersa! 

O pior (se é que ainda existe algo a mais pra piorar) é ter que esperar compreensão das pessoas por estar nessa situação. Quem nunca fumou é incapaz de entender o que são esses sintomas da abstinência e muitos acham que é frescura. Até mesmo quem já fumou e conseguiu parar, muitas vezes não entendem, esquecem o que passaram. 

Mas... vamos lá... fé e força! Porque foco eu não tenho mais...